FICHA TÉCNICA

COLETIVO MOTIM VENOSO direção
NINA GIOVELLI OLÍVIA NICULITCHEFF RENATA PASSOS criação e performance
OTÁVIO CARVALHO trilha sonora AFONSO COSTA criação e operação de luz
COLETIVO MOTIM VENOSO cenografia, vídeo-projeção e coordenação de produção
ANDREA GUERRA CAROLINA CHERUBINI
FLÁVIA LOBO DE FELICIO GABRIELA CHERUBINI [ATELIÊ VIVO] figurino
PAT BERGANTIN provocação FELIPE TEIXEIRA projeto gráfico
COLIN MACFADYEN ilustração RAISSA BAGANO produção
RENATO GRIECO operação de vídeo-projeção MAYRA AZZI fotografia
GIL DOUGLAS MAYRA LIGER operação de som
JÚNIOR CECON TADEU AMARAL agradecimentos

APOIO
Centro de Referência da Dança de São Paulo - CRDSP, Fundação Nacional de Artes - FUNARTE, Oficina Cultural Oswald de Andrade e Submarino Fantástico.
REALIZAÇÃO
PROAC Ações Inéditas em Performance - Programa de Ação Cultural da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo
Parque Aquático é uma aula performance que opera a transmutação dos líquidos corporais em suas diferentes qualidades. O público é convidado a habitar dimensões fluidas, um espaço contínuo entre o dentro e o fora onde circulam pensamentos, imagens aquosas, sensações úmidas, sons molhados e danças convidativas.
OFICINA
DANÇAR A CORPORIFICAÇÃO DOS FLUIDOS
Este trabalho vem sendo desenvolvido desde agosto de 2022, quando estivemos em residência por 4 meses no Centro de Referência da Dança em São Paulo. Nos reunimos inicialmente como um grupo de pesquisa com o objetivo de explorar as relações entre a anatomia vivencial, como abordada pelo método Body Mind Movement e a criação em dança. Em março de 2023 apresentamos uma primeira abertura de processo na Mostra de Residentes.
No dia 26 de abril realizamos uma oficina dentro do projeto onde compartilhamos procedimentos de criação do Parque Aquático a partir de ferramentas de toque, movimento e meditação, corporificando os fluidos do corpo, principalmente os três utilizados no trabalho: sangue, líquido cefalorraquidiano e líquido seroso, habitando suas diferentes qualidades.
Ao entrar na instalação do Parque Aquático, cada pessoa recebe um balão de silicone cheio de água.
Um objeto que convida a entrar em contato com o elemento água, a sentir sua densidade e peso.
Integra o início da performance uma meditação guiada, que você pode ouvir aqui
O formato de "aula-performance" se aproxima do formato da lecture performance como organização e ativação das nossas propostas e inquietações, é uma escolha política e nos abre a possibilidade de convidar o público a autocontemplar-se enquanto corpo movente, ainda que desde sua posição "parada" de espectador, o que é desejável; nos interessa criar uma arte crítica que renove os mecanismos de partilha do sensível, promova a horizontalidade das relações, a redistribuição dos lugares comuns e reinstale no espectador o prazer do aprendizado.
AULA-PERFORMANCE
BODY MIND MOVEMENT E OS FLUIDOS CORPORAIS
O processo de criação do Parque Aquático tem como principal metodologia a anatomia vivencial a partir do método Body Mind Movement, de onde exploramos tanto a criação e pesquisa coreográfica quanto a dimensão interativa do projeto.

O recorte escolhido para o trabalho é o mapa anatômico dos 3 cérebros (cérebro entérico, cérebro cardíaco, cérebro cabeça), como proposto por Bonnie Bainbridge Cohen, e sua relação com os fluidos corporais. O deslocamento da centralidade do cérebro-cabeça, tão enfatizada na sociedade contemporânea, nos ajuda a refletir sobre os modos de relação e interação entre os corpos e o ambiente. Como podemos, através da dança, habitar outros espaços de percepção e expressão no mundo?

Da pesquisa desses três cérebros, nos aprofundamos em três fluidos que se relacionam com essas regiões:


- líquido cefalorraquidiano, que se relaciona com o cérebro cabeça. É um fluido leve, ultrafiltrado, que é produzido em nossa cabeça, nos plexos coróides. Ele está em relação com o sistema nervoso central, banhando nosso cérebro e percorrendo nossa medula, ao longo da coluna.


- sangue, que se relaciona com o cérebro cardíaco. Um fluido denso, pesado e nutritivo, bombeado do nosso coração para oxigenar todas as células do corpo.


- líquido seroso, que se relaciona com o cérebro entérico. Um fluido que lubrifica as relações entre os órgãos e diminui o atrito entre as membranas durante a movimentação deles.


líquido cefalorraquidiano
sangue
líquido seroso
A transparência que escorre livre, leve, fluida, daqui pra lá, de lá pra cá, sem grandes dificuldades. Quero me conectar com o elemento água, tento buscá-lo dentro, sinto a saliva, logo me esqueço. A cachoeira de pensamentos e a emoção, tenho sentido raiva. O que fazer com essa intensidade do que sinto? Busco só aceitar e deixar ir, assim como a água que escorre. Fico com a água. Admiro uma visão transparente e fácil. Volto a cada instante. No caminhar, o cheio e o vazio dos pés. No sentado, sinto um milhão de ajustes possíveis da integração de todo corpo pra esse movimento. O espaço entre mãos e tronco, as articulações do pulso e do cotovelo. Se o copo fica mais pra cima ou mais pra baixo. O corpo vai se reorganizando e buscando espaço enquanto a água cai.
ESCRITAS AUTOMÁTICAS DO PROCESSO DE CRIAÇÃO
o cheio e o vazio dos pés, o cheio e o vazio da água, parece que sou outra pessoa hoje que nada parece querer derramar pense no peso e ele se faz mais presente coração espiralando quanto mais preciso gesto mais me sinto encarnada no agora e na experiência quanto menos firula melhor a experiência é atravessada por eventos externos vozes familiares que incomodam o som da rua, o som de fora da sala, o som das vísceras ou tudo é experiência uma ressonância motora da água de dentro, os ossos os músculos o plástico a água de fora um sistema de transporte ações mínimas justas quanto mais por urina melhor peso líquido a sensação de pesar na água, uma goteira
Fluxo sanguíneo que se divide em dois, aquilo que vai, aquilo que volta. Essa divisão começa a me parecer estranha. Como se o arterial fosse com muita intensidade e o venoso só voltasse, de modo que não consigo me projetar no espaço, não sei ser no espaço. Algo estreito, engruvinhado e pulsante. A valsa me pareceu estranha nesse momento. No arterial experimentei os chutes, talvez uma memória da aula de taiji de ontem? Como seria dançar os dois ao mesmo tempo? Perderia a potência de cada um? Busco imaginar o peso, a densidade e a cor vermelha. É difícil ter plena consciência dessa estrutura líquida que faz parte de mim, está lá. A garganta está estranha e sinto o corpo mais fraco. É desafiador ir para a potência do sangue com uma fragilidade. Vontade de cuidado e de descanso. Observo a diferença das danças de nós três, das qualidades e ritmos que cada uma encontra para se conectar com esse fluido após ser tocada. O quanto não é o toque que criou a dança?
ondas transitam borram a experiência do peso, profundos peixes borbulhas vermelhas correria desejo de alcançar coisas pessoas os lugares que o corpo me absorve interno e externos densos caminhos de rios e lagos, a água que carrega a vida para onde der para ir pulsando ou pulsar Me leva para frente o valsar me faz hesitar para trás sou seguida por uma história que vem antes de mim de corpos de naturezas que desafiaram sair da água para o asfalto sair da célula para o som da rua que corta fazendo parte ondas da experiência centramento sempre em movimento acordei pensando em bombas o coração é uma cápsula clássica do tempo não saber sabendo com as mãos pela boca pelo sexo das palavras um parque ensanguentado cheio de vida correndo pegar carona numa valsa em três ser um ser continuidade um circuito que não tem começo começo meio recomeço sankofa somático.
Líquido pegajoso, treme, desliza, quanto mais fundo o toque mais chega nos órgãos. Molha, molda e tem preguiça. Tempo de lava, tempo descanso. Deslizar no outro sem saber como os corpos irão se encaixar. Fluir como água que se adapta, se molda a tudo, a tudo se curva. Fazer das quinas do corpo água, fazer das quinas do corpo curva. Ceder sem abandonar-se por completo. Presença de órgãos e motricidade humana. Equilíbrio raro que a busca oral ajuda dando vida a cabeça. Pés que deslizam no chão, quando sabem ser lugar de firmar e ser apoio? As vezes pairam no ar como os corpinhos dos bebes. Na sala os fios pendurados me agradam. Penso em mangueiras ou algo aquático instalativo que podia vir de cima. Ao fundo som de sirene e agora um alarme que não cessa. E se também os sons da cidade fossem ficando debaixo d'água? Como num grande sonho. Dançamos uma dança ilusória e aquática. O tônus precisa ter uma intenção clara e não se assustar. O corpo é amassado e contorcido no contato com o outro. Todos os órgãos se afetam.
As lágrimas dos dinossauros, o suor humano, a umidade da floresta. A água que bebemos e a água que se vai de nós. Diariamente renovamos nossas águas, diariamente renovamos nossas águas. Há uma inteligência da água que chega em nós em saber o que se é, pra onde vai. Cavando caminhos ela se encontra em seu território, em sua função humana improvisada. Por ora, sou sangue, amanhã quem sabe serei suor de tigre. As águas são livres. As células de água tem memória? Me vejo então encharcada de toda a memória do mundo. Toda a experiência de todo o planeta está em mim, molhada. A saliva na boca enquanto escrevo se faz ácida. É meu corpo que insiste em tratar as águas que entram sempre do mesmo modo. Sentir o peso aquático é bom e é real. Quando se amassa uma pele, um braço, uma perna, se sabe que aquilo é moldável, é aquático. Este elemento nos permite ir, se transformar.
uma nascente no centro da minha cabeça escorre viva baba gozo sai pelos poros pela boca como rio enxurrada causo uma enchente, navegando em destroços pedaços de mata úmida, fungos coloridos, águas vivas pulsam, dentro dobrando para fora, tubos se contorcem direcionando fluido, correnteza, o mar dentro de uma barriga primordial, mover os pés na cidade inundada soltar-se na correnteza corrente sanguínea valsando entre os pés de todas as pessoas que estão aqui respirar e pulsar entre fluidos viscosos, leves densidade que chama para o chão, causar infiltrações, emboloramentos, úmido gelado quente densidade pesada fluida que escorre lenta, vai tomando a forma do seu próprio caminho as margens dos rios internos são movimento alcançam e buscam nutrientes, levam destroços, uma bomba pulsante direciona…
Prelúdio
Ato I - Seroso
Ato II - Sangue
Ato III - LCR
Registros de Mayra Azzi das apresentações realizadas em abril na Oficina Cultural Oswald de Andrade